Presidente americano confirmou bombardeios e prisão de Maduro em sua rede social; ditadura chavista decreta estado de emergência por ‘ofensiva imperialista’
CARACAS – Os Estados Unidos atacaram a Venezuela com bombardeios em Caracas e capturaram o ditador Nicolás Maduro e sua esposa neste sábado, 3. O presidente americano, Donald Trump, confirmou a informação em sua rede social, a Truth Social. O presidente afirmou ainda que mais detalhes serão apresentados em uma coletiva de imprensa marcada para as 13h (horário de Brasília), em Mar-a-Lago, na Flórida.
“Os Estados Unidos da América realizaram com sucesso um ataque de grande escala contra a Venezuela e seu líder, o presidente Nicolás Maduro, que foi capturado, juntamente com sua esposa, e retirado do país por via aérea. Essa operação foi realizada em conjunto com forças de aplicação da lei dos Estados Unidos”.
A procuradora-geral dos EUA, Pam Bondi, afirmou que o ditador venezuelano enfrentará “a justiça americana em solo americano, em tribunais americanos”, se referindo à acusação formal de narcotráfico e terrorismo apresentada contra ele em Nova York.
A vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, afirmou em um áudio divulgado em redes de televisão e rádio que o paradeiro de Maduro e Cilia Flores é desconhecido e pediu por uma prova de vida do ditador e sua esposa. Rodríguez reiterou que os “planos de defesa integral da nação” permanecem ativos.
Pela Constituição venezuelana, em caso de queda de Maduro, o poder passaria para Delcy Rodríguez, responsável pela política econômica. Mas, dada as circunstâncias, não está claro quem acabaria no comando. Os Estados Unidos não reconhecem Maduro como presidente legítimo, e a oposição venezuelana afirma que o presidente de direito é o político exilado Edmundo González Urrutia.
A oposição liderada pela Nobel da Paz María Corina Machado ainda não se pronunciou. Um post no perfil oficial de comunicação de Corina e Urrutia se limitava a dizer que “neste momento, não há um pronunciamento oficial sobre os fatos reportados na Venezuela.”
Em uma de suas primeiras postagens nas redes sociais desde que Trump anunciou a captura de Maduro, o Secretário de Estado Marco Rubio republicou o que havia escrito em julho do ano passado. Aparentemente, trata-se de uma tentativa de rebater as preocupações, inclusive de parlamentares republicanos, sobre a legalidade dos ataques e da captura. “Maduro NÃO é o Presidente da Venezuela e seu regime NÃO é o governo legítimo”, escreveu Rubio em julho de 2025.
A Venezuela solicitou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU. “Diante da agressão criminosa cometida pelo governo dos EUA contra a Pátria, solicitamos uma reunião urgente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, responsável por fazer valer o Direito Internacional”, afirmou no Telegram o chanceler venezuelano, Yván Gil.
Bombardeios
A captura de Maduro seguiu uma série de bombardeios americanos em Caracas e outras cidades venezuelanas.
Vídeos que circulam nas redes sociais mostram helicópteros das Forças de Operações Especiais dos EUA sobrevoando Caracas durante a madrugada deste sábado, enquanto múltiplas explosões iluminam o céu da capital venezuelana.
Segundo relatos não confirmados, as aeronaves seriam helicópteros CH-47G Chinook, projetados para operações secretas, e teriam atuado durante ataques que, segundo o governo venezuelano, atingiram os estados Miranda, Aragua e La Guaira, além de Caracas.
Diante da situação, a ditadura de Nicolás Maduro declarou estado de emergência por causa do que chama de “ofensiva imperialista” dos EUA.
O senador americano Mike Lee, citando o secretário de Estado Marco Rubio, disse que não há planos de novos ataques ao território venezuelano. Rubio “não prevê mais ações na Venezuela agora que Maduro está sob custódia dos Estados Unidos”, escreveu Lee, um republicano que inicialmente foi crítico da operação, após afirmar que havia conversado com o chefe da diplomacia americana.
Ainda não há informações sobre mortos e feridos. O regime chavista diz os bombardeios atingiram a população civil.

O ministro do Interior, Diosdado Cabello, considerado um dos principais executores do regime, pediu calma em um pronunciamento televisionado. “Que ninguém se desespere. Que ninguém facilite as coisas para o inimigo invasor”, disse ele. Cabello também afirmou, sem apresentar provas, que bombas atingiram prédios civis.
O Fuerte Tiuna, o maior complexo militar da Venezuela, foi visto em chamas em Caracas após explosões na cidade. O extenso complexo é sede do Ministério da Defesa e do comando do exército da Venezuela.
“Vamos ativar um desdobramento massivo de todos os meios terrestres, aéreos, navais, fluviais e de mísseis. Sistemas de armas para a defesa integral”, disse disse o ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino López, em um vídeo divulgado em suas redes sociais.
De acordo com testemunhas da Reuters e com imagens que circulam nas redes sociais, explosões, aeronaves e colunas de fumaça preta foram vistas em diferentes pontos da capital a partir das 2h em Caracas (3h de Brasília).
Moradores relataram ainda uma queda de energia na região sul da cidade, nas proximidades de uma importante base militar.
Os EUA enviaram uma flotilha militar ao Caribe em agosto e já bombardearam quase 30 embarcações, com um balanço de mais de cem mortes. Caracas afirmava que as manobras pretendiam derrubar o regime venezuelano.
Na terça-feira, 30, Washington realizou ataques contra mais três embarcações suspeitas de tráfico de drogas em águas internacionais, informou o Comando Sul, responsável por operações em uma área que vai do Caribe ao sul da Argentina. As embarcações viajavam em comboio, segundo as Forças Armadas americanas.
Trump havia alertado em novembro que iniciaria ataques terrestres na Venezuela e autorizou operações da CIA, a agência de inteligência dos EUA, no país sul-americano.
A Casa Branca ainda não se manifestou, mas, antes das explosões, a Administração Federal de Aviação (FAA) proibiu voos comerciais americanos de sobrevoarem o espaço aéreo venezuelano devido à “atividade militar em andamento”. O aviso foi emitido pouco depois da 1h no horário da Costa Leste (também 3h em Brasília).
O aviso alertava todos os pilotos comerciais e privados dos EUA de que o espaço aéreo sobre a Venezuela e a pequena ilha de Curaçao, localizada ao norte da costa do país, estava interditado “devido a riscos à segurança de voo associados à atividade militar em curso”.
O bombardeio durou cerca de 30 minutos. Moradores de diversos bairros correram para as ruas. Algumas explosões puderam ser vistas à distância em várias áreas de Caracas.
As explosões acontecem após o presidente Donald Trump, que enviou uma frota militar para o Caribe, mencionar a possibilidade de ataques terrestres contra a Venezuela e afirmar que os dias do presidente Nicolás Maduro no poder “estão contados”.
Reações
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que “os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável”. O governo brasileiro convocou uma reunião para tratar da Venezuela.
“A ação lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe e ameaça a preservação da região como zona de paz”, escreveu Lula no X. “A comunidade internacional, por meio da Organização das Nações Unidas, precisa responder de forma vigorosa a esse episódio. O Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação.”
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, crítico do governo Trump, comentou o bombardeio em sua conta no X. Segundo ele, a “ONU e a Organização dos Estados Americanos devem se reunir imediatamente”.
Bogotá ordenou a mobilização de militares para a fronteira com a Venezuela. Petro classificou as ações de Washington como uma “agressão à soberania” da América Latina e disse que elas terão como consequência uma crise humanitária.
A Colômbia ocupa neste ano uma cadeira como membro não permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, motivo pelo qual pediu que esse órgão seja convocado.

Irã e Cuba, dois países aliados do chavismo também condenaram os ataques. A Rússia afirmou que não havia justificativa para o ataque e que a “hostilidade ideológica” prevaleceu sobre a diplomacia e pediu esclarecimentos imediatos sobre o paradeiro de Maduro.
“Esta manhã, os Estados Unidos cometeram um ato de agressão armada contra a Venezuela. Isso é profundamente preocupante e condenável”, disse o Ministério das Relações Exteriores da Rússia em um comunicado. “A hostilidade ideológica triunfou sobre o pragmatismo comercial”, acrescentou.
O presidente argentino Javier Milei comemorou a captura de Maduro. “A liberdade avança”, escreveu Milei nas redes sociais.
Já Espanha disse que o país está disposto “a oferecer seus bons ofícios para alcançar uma solução pacífica e negociada para a crise atual”.
Pedro Sánchez, o primeiro-ministro de esquerda da Espanha, que já se manifestou contra as ações militares anteriores do governo Trump na Venezuela, adotou um novo tom cauteloso nesta sábado. “Instamos a todos a desescalar a situação e a agir com responsabilidade. O direito internacional e os princípios da Carta da ONU devem ser respeitados”, escreveu ele nas redes sociais.
A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, pediu “contenção” e respeito ao direito internacional. Kallas indicou na rede social X que falou com Marco Rubio e lembrou que a União Europeia questiona a legitimidade democrática de Nicolás Maduro.
Mas “em qualquer circunstância, devem ser respeitados os princípios do direito internacional e da Carta das Nações Unidas. Fazemos um apelo à contenção”, escreveu.
O presidente do Chile, Gabriel Boric, expressou preocupação e condenação pelas ações militares dos Estados Unidos. De esquerda, Boric é um crítico do regime venezuelano. “A crise venezuelana deve ser resolvida por meio do diálogo e do apoio ao multilateralismo, e não através da violência nem da ingerência estrangeira.”/AFP e NYT.
Fonte: Estadão



