Por Paulo de Tarso – Jornalista
Declaração pública sobre o vice escancara crise interna e deixa lacunas sobre a real motivação do recuo.
Há decisões na política que dizem muito mais pelo modo como acontecem do que pela explicação oficial que as acompanha. A desistência do governador Marcos Rocha da disputa pelo Senado é uma delas. Repentina, mal digerida e cheia de lacunas, a decisão deixou no ar uma sensação de que a versão apresentada ao público não encerra, nem de longe, toda a história.
Em entrevista à SIC TV, o governador foi enfático ao afirmar que não poderia deixar o comando do Estado nas mãos do vice-governador Sérgio Gonçalves, por não confiar nele. A declaração foi forte, direta e politicamente explosiva. Ao trazer a ruptura para o debate público, Rocha não apenas justificou sua saída da corrida eleitoral, como também escancarou um racha no topo do poder estadual.
Mas é justamente aí que começam as dúvidas. A política raramente se move por um único motivo. Quando um governador, que vinha se colocando como pré-candidato natural ao Senado, abandona o projeto de forma tão abrupta, é legítimo questionar: será mesmo que tudo se resume à desconfiança no vice?
Nos bastidores, a leitura é mais complexa. Há quem sustente que a pré-campanha já não empolgava como se esperava, que alianças não se consolidaram e que avaliações internas podem ter mostrado um cenário menos confortável nas urnas. Não seria a primeira — nem a última — vez que pesquisas silenciosas mudam discursos públicos.
Outro ponto que causa estranheza é o timing. Se a relação com o vice estava tão deteriorada, por que isso só veio à tona agora? A desconfiança surgiu de repente ou sempre esteve ali, convenientemente abafada enquanto o projeto político parecia viável? Esse silêncio anterior é tão revelador quanto a fala recente.
Ao personalizar a decisão e apontar diretamente para o vice, Marcos Rocha assume um desgaste que ultrapassa o campo eleitoral. A mensagem passada à sociedade é dura: o governo pode até seguir, mas a harmonia interna nunca foi tão frágil. Para um Estado que precisa de estabilidade administrativa, isso não é um detalhe menor.
No fim, a explicação oficial parece simples demais para uma decisão tão estratégica. E, em política, explicações simples demais costumam esconder questões incômodas. Enquanto o governador não amplia o discurso e enfrenta os questionamentos de frente, Rondônia segue tentando decifrar se o recuo foi fruto de um racha no poder — ou de um medo silencioso do veredito das urnas.
Redação O Bandeirante News



