O adoecimento de professores no Brasil já deixou de ser alerta — virou rotina. Não se trata de casos isolados, mas de um sistema que espreme quem sustenta a educação até o limite físico e emocional. Os números confirmam o que as salas de aula denunciam em silêncio: ensinar está adoecendo.
Dados do INSS mostram que os transtornos mentais estão entre as principais causas de afastamento do trabalho no país, e os professores aparecem com frequência nesse ranking nada honroso. Ansiedade, depressão e burnout se tornaram parte do vocabulário docente. A Organização Mundial da Saúde reconheceu o burnout como fenômeno ocupacional, mas o Brasil ainda insiste em tratar o problema como fragilidade individual.
O Censo Escolar do INEP revela um país com mais de dois milhões de professores na educação básica. O que não aparece nos gráficos é o custo humano por trás desses números: jornadas que não acabam, metas inalcançáveis, burocracia sufocante, falta de estrutura e salários que não acompanham a responsabilidade da função. O professor trabalha muito, recebe pouco e ainda precisa provar, todos os dias, que merece respeito.
Há também o ambiente escolar, cada vez mais hostil. Crescem os relatos de desrespeito, violência verbal e pressão de todos os lados — da gestão, das famílias, da sociedade. Quando o professor adoece, muitas vezes segue em sala por medo: medo de retaliação, de perseguição administrativa, de ser visto como problema. O resultado é um adoecimento silencioso e profundo.
Não é exagero dizer que o sistema empurra educadores para o fundo do poço e depois se surpreende com o número de afastamentos. A conta chega rápido: salas sem professor, aprendizagem comprometida, alunos prejudicados. Mas a indignação costuma durar pouco — até o próximo afastamento.
Valorizar o professor virou discurso fácil e prática rara. Enquanto não houver carreira digna, condições reais de trabalho e apoio psicológico contínuo, o Brasil seguirá perdendo quem ainda insiste em ensinar. E um país que adoece seus professores compromete, sem alarde, o próprio futuro.



