EDITORIAL
Por Paulo de Tarso – Jornalista/Editor
Neste início de campanha eleitoral, candidatos de diferentes partidos têm colocado a violência contra a mulher e o feminicídio no centro dos discursos. Em Rondônia, onde os casos continuam preocupantes, a discussão precisa sair do palanque e chegar às políticas públicas.
Neste início de campanha eleitoral, uma bandeira tem aparecido com frequência nos discursos dos candidatos: o combate à violência contra a mulher e ao feminicídio.
Candidatos à Presidência da República, aos Governos Estaduais, ao Senado, à Câmara dos Deputados e às Assembleias Legislativas têm falado em proteção, segurança, prevenção e políticas públicas para enfrentar um problema que continua fazendo vítimas.
É uma pauta necessária. Mais do que necessária, é urgente.
Mas, justamente por ser tão séria, não pode virar apenas mais um discurso eleitoral.
E é aqui que a cobrança precisa entrar.
Em Rondônia, os casos de violência contra a mulher e feminicídio continuam preocupando. Cada ocorrência representa muito mais do que um número em uma estatística: representa uma família destruída, filhos que perdem a mãe, pais que enterram filhas e histórias interrompidas de maneira brutal.
Por isso, quando um candidato sobe ao palanque para falar sobre o assunto, o eleitor tem todo o direito de perguntar:
O que você fez quando teve a oportunidade de fazer?
Essa pergunta precisa ser dirigida principalmente aos candidatos que já ocuparam cargos públicos e agora buscam a reeleição ou pretendem permanecer nos espaços de poder.
Muitos já tiveram mandato, orçamento, estrutura administrativa, assessorias e instrumentos para propor leis, fiscalizar governos, cobrar investimentos e fortalecer políticas públicas.
Tiveram tempo.
Tiveram oportunidade.
E tiveram a caneta na mão.
Então não é razoável que, a cada eleição, o problema seja apresentado como se tivesse acabado de aparecer.
RONDÔNIA NÃO PODE SE ACOSTUMAR COM A TRAGÉDIA
O que acontece em Rondônia exige uma discussão séria e permanente.
Não podemos esperar que uma mulher seja assassinada para depois aparecer uma manifestação de pesar, uma postagem nas redes sociais e um discurso dizendo que “algo precisa ser feito”.
Algo realmente precisa ser feito. Mas antes.
O feminicídio quase nunca começa no momento da morte. Muitas vezes existe uma história anterior de ameaças, perseguições, agressões físicas, violência psicológica, controle e humilhações.
É justamente nesse intervalo que o poder público precisa entrar.
É preciso fortalecer a rede de proteção, ampliar o atendimento às vítimas, melhorar os mecanismos de denúncia, garantir acolhimento, acompanhar os casos de maior risco e assegurar que medidas protetivas sejam efetivamente cumpridas.
Também é necessário discutir, dentro dos limites da legislação, formas mais eficientes de responsabilizar agressores reincidentes e impedir que a violência avance até o ponto em que não exista mais volta.
A melhor política contra o feminicídio é aquela que consegue impedir o feminicídio.
MULHER NÃO É PROPRIEDADE
Ainda existe uma mentalidade atrasada de que mulher deve obedecer, aceitar humilhação e suportar agressões dentro de casa.
Não deve.
Mulher não é propriedade.
Não é saco de pancada.
Não existe para satisfazer o controle, o ciúme ou a raiva de ninguém.
A mulher rondoniense trabalha, estuda, empreende, ocupa cargos de liderança, sustenta famílias e participa ativamente da economia do estado.
Muitas ainda enfrentam uma jornada dupla: trabalham fora e, ao voltar para casa, assumem boa parte das responsabilidades domésticas e dos cuidados com os filhos.
E, para algumas, o lugar que deveria ser de descanso e segurança acaba se transformando no lugar onde mora o medo.
É uma realidade que não pode ser naturalizada.
CHEGA DE PROMESSA GENÉRICA
Se os candidatos realmente querem enfrentar a violência contra a mulher, que apresentem propostas concretas.
Quanto será investido?
Quais serviços serão ampliados?
Como será o atendimento?
Que estrutura será oferecida às vítimas?
Como será feita a prevenção?
Quais serão as metas?
E quem vai fiscalizar?
A mulher que está sendo ameaçada não precisa saber quantos palanques o candidato visitou.
Ela precisa saber para onde correr quando o agressor aparecer na porta.
Precisa encontrar atendimento, proteção e acolhimento.
Precisa ter certeza de que sua denúncia será levada a sério.
QUEM JÁ TEVE PODER PRECISA PRESTAR CONTAS
É aqui que a campanha precisa deixar de ser apenas discurso e se transformar em cobrança.
Quem já ocupou cargo público precisa mostrar o que fez.
Não basta falar agora sobre feminicídio porque o assunto gera repercussão e sensibiliza.
Mostre o resultado.
Que política foi criada?
Quanto foi investido?
Quantas mulheres foram atendidas?
Que estrutura foi ampliada?
O que deu certo?
E o que não deu certo?
Porque é muito fácil falar bonito diante de um microfone. Difícil é construir política pública quando não há câmera, palanque ou eleição.
Nesta eleição, não basta levantar a bandeira contra a violência à mulher. O eleitor precisa cobrar propostas concretas e, principalmente, respostas de quem já ocupou cargo público e teve a oportunidade de fazer mais para proteger as mulheres.
E PARA QUEM ESTÁ CHEGANDO AGORA?
Para os candidatos que estão entrando na política, fica uma dica — e também uma cobrança antecipada:
não basta falar, tem que fazer.
Não adianta chegar com discurso novo, promessa bonita e frases prontas sobre defesa das mulheres se, depois de eleito, o assunto ficar esquecido no fundo de alguma gaveta.
A política precisa ser feita com planejamento, orçamento, fiscalização e resultado.
Quem está chegando agora tem a oportunidade de fazer diferente. Pode aprender com os erros de quem já passou pelo poder, apresentar novas ideias e transformar a indignação diante da violência em ações concretas.
Mas o eleitor também precisa fazer a sua parte: cobrar depois da eleição aquilo que foi prometido antes dela.
Porque campanha eleitoral não pode ser temporada de promessas.
Tem que ser o começo de um compromisso.
RONDÔNIA PRECISA DE RESULTADOS
Rondônia precisa de menos discurso ensaiado e mais resultado.
Menos fotografia ao lado de vítimas e mais proteção para elas.
Menos promessa de campanha e mais política pública funcionando.
A mulher não pode ser lembrada apenas quando a eleição começa.
Ela precisa ser protegida antes que a violência vire tragédia.
E quem pretende ocupar um cargo público precisa entender que mandato não é prêmio. É responsabilidade.
Ao candidato que já teve poder, cabe prestar contas.
Ao candidato que está chegando, cabe provar que pode fazer melhor.
E ao eleitor, cabe perguntar antes de apertar o botão:
“Você está falando bonito. Mas o que pretende fazer de verdade?”
Porque, quando uma mulher é assassinada, não existe segundo turno para ela.
Não existe nova chance.
Não existe próximo mandato.
Existe uma vida perdida.


