O BANDEIRANTE NEWS
Por: Paulo de Tarso Cabral
No Brasil, o tabagismo responde por cerca de 174 mil mortes por ano; em Rondônia, Porto Velho registra presença expressiva de fumantes adultos, enquanto médicos alertam para a dependência cada vez mais precoce da nicotina e para os riscos do cigarro eletrônico
Neste sábado, 29 de agosto, o Brasil lembra o Dia Nacional de Combate ao Fumo. A data poderia passar despercebida em meio à correria do dia a dia, mas os números mostram que não há motivo para tratar o assunto como coisa do passado.
O cigarro continua matando, adoecendo famílias e pressionando o sistema de saúde. E, enquanto muita gente ainda acredita que o problema ficou restrito ao cigarro tradicional, uma nova preocupação ganhou força: os cigarros eletrônicos, conhecidos como vapes, pods e dispositivos eletrônicos para fumar, estão aproximando a nicotina de adolescentes e jovens.
Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam que o tabagismo foi responsável por 174 mil mortes por ano no Brasil, segundo a estimativa mais recente divulgada pelo instituto. Isso representa aproximadamente 477 mortes todos os dias. O levantamento também estima em R$ 153,5 bilhões por ano os custos provocados pelo tabagismo ao país, considerando despesas de saúde e perdas econômicas.
É muita gente. É praticamente uma cidade pequena desaparecendo todos os anos por doenças relacionadas ao tabaco.
Não é só câncer de pulmão
Quando se fala em cigarro, muita gente pensa imediatamente no câncer de pulmão. E não está errado: o tabagismo é um dos principais fatores de risco para a doença e responde por cerca de 80% das mortes por câncer de pulmão no Brasil, segundo publicação científica do próprio INCA.
Mas o estrago não para aí.
O cigarro está relacionado a DPOC — doença pulmonar obstrutiva crônica —, infarto, AVC, diversos tipos de câncer, pneumonia e outras doenças cardiovasculares e respiratórias.
Na estimativa de carga do tabagismo referente a 2020, o INCA contabilizou 444.953 novos casos de doenças cardíacas, 433.729 novos casos de DPOC, 52.737 AVCs, 40.261 novos diagnósticos de outros cânceres e 26.126 novos diagnósticos de câncer de pulmão atribuíveis ao tabagismo.
Ou seja: antes de matar, o cigarro pode passar anos cobrando a conta do organismo.
Em Rondônia, o alerta também está aceso
Rondônia não está fora desse mapa.
Como o Vigitel acompanha as capitais, o principal retrato disponível para o Estado é o de Porto Velho. No levantamento de 2023, a capital rondoniense apresentava 8,9% de adultos fumantes, percentual que mostra que milhares de moradores ainda convivem diariamente com a dependência da nicotina.
A própria Prefeitura de Porto Velho mantém ações de enfrentamento ao tabagismo e estabeleceu como meta reduzir a prevalência de fumantes adultos. Em documento oficial da saúde municipal, a administração registra ações de capacitação de profissionais para o tratamento de pessoas que desejam abandonar o cigarro.
E há uma característica regional que torna a situação ainda mais delicada: a fumaça das queimadas e a poluição do ar podem agravar problemas respiratórios de quem fuma.
Em agosto de 2024, as quatro UPAs de Porto Velho registraram 1.076 atendimentos por falta de ar, contra 706 no mesmo mês do ano anterior. Médica da rede municipal alertou que os danos provocados pelo cigarro deixam o sistema respiratório mais vulnerável aos efeitos da fumaça das queimadas.
No verão amazônico, quando o céu de Rondônia muitas vezes fica tomado pela fumaça, pulmão de fumante e ar contaminado formam uma combinação que ninguém deveria querer experimentar.
O cigarro eletrônico enganou muita gente
A aparência mudou. O problema, não.
Os cigarros eletrônicos chegaram com cara de tecnologia, sabores, aromas, cores e formatos que parecem distantes daquele velho maço de cigarros.
Mas não existe cigarro eletrônico inocente.
A Anvisa mantém proibidas no Brasil a comercialização, importação e propaganda dos dispositivos eletrônicos para fumar. A agência alerta para riscos como doenças pulmonares, problemas cardiovasculares, exposição a substâncias tóxicas, dependência de nicotina e outros possíveis danos que ainda continuam sendo investigados.
E tem mais: a Anvisa alerta que pesquisas indicam que o cigarro eletrônico pode funcionar como porta de entrada para o cigarro convencional, especialmente entre crianças e adolescentes.
A preocupação começa cada vez mais cedo
O problema é que a nicotina não espera o cidadão completar 18, 30 ou 40 anos para fazer estrago.
Quanto mais cedo começa o contato com produtos que contêm nicotina, maior é a preocupação com o desenvolvimento da dependência.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 mostraram que o uso atual de dispositivos eletrônicos para fumar entre pessoas com 15 anos ou mais era de 0,89% no Brasil, com diferenças por sexo e escolaridade. Na região Norte, o percentual chegava a 1,61% entre pessoas com 15 anos ou mais.
Em Porto Velho, dados da PNS 2019 apontaram consumo de dispositivos eletrônicos entre adultos de 3,0% dos homens e 1,3% das mulheres.
Os números podem parecer pequenos, mas especialistas alertam que o problema não deve ser analisado apenas pelo tamanho da fotografia. O que preocupa é o comportamento de uma geração que pode estar entrando em contato com a nicotina por meio de produtos com aparência mais atraente.
Médicos chamam atenção para um detalhe: dependência é doença
Para quem olha de fora, parar de fumar parece simples: “é só largar”.
Quem já tentou sabe que não é bem assim.
A nicotina provoca dependência e pode fazer o fumante sentir irritação, ansiedade, dificuldade de concentração e forte desejo de consumir o produto quando tenta interromper o uso.
Por isso, o tratamento não deve ser reduzido a uma bronca ou a um conselho do tipo “tenha força de vontade”.
O próprio INCA destaca a importância da abordagem dos profissionais de saúde. Um estudo divulgado pelo instituto mostrou que quase 10 milhões de fumantes passaram por atendimento com médico, enfermeiro ou dentista e não receberam orientação para parar de fumar. O instituto estima que uma conversa breve durante consultas poderia ter ajudado a reduzir o número de fumantes e ainda gerar economia para o SUS.
É aí que entra uma mudança importante de olhar: fumante não precisa apenas de cobrança; precisa de tratamento, acompanhamento e apoio.
Parar hoje ainda faz diferença
Existe uma boa notícia no meio desse cenário.
Nunca é tarde para parar de fumar.
Informações divulgadas pelo Ministério da Saúde e pelo INCA mostram que o organismo começa a apresentar benefícios depois da interrupção do cigarro. Com o passar do tempo, a circulação e a respiração melhoram e o risco de doenças relacionadas ao tabagismo diminui.
E não precisa esperar aparecer uma doença grave para procurar ajuda.
O SUS oferece tratamento gratuito para quem deseja abandonar o tabagismo, com acompanhamento de profissionais de saúde e estratégias para enfrentar a dependência.
E o tema de 2026 é direto ao ponto
Neste ano, o INCA escolheu uma mensagem especialmente voltada aos jovens e às pessoas que praticam atividade física:
“Atividade física e saúde: treinar não combina com fumar.”
A campanha lembra que a nicotina aumenta a frequência cardíaca e a pressão arterial, prejudica a capacidade de recuperação e pode comprometer o desempenho físico. O cigarro e o vape podem até caber no bolso ou na mão, mas não combinam com um corpo que quer respirar melhor e viver mais.
Um alerta para Rondônia
Em Rondônia, onde a fumaça das queimadas já representa um problema recorrente para a qualidade do ar, cuidar dos pulmões deveria ser prioridade.
Para o jovem que nunca fumou, a recomendação é simples: não comece.
Para quem está usando vape achando que “é só vapor”, é hora de rever essa ideia.
Para o adulto que fuma há anos e acredita que “agora não adianta mais”, também vale o recado: adianta, sim.
E para a família que tem um adolescente experimentando cigarro eletrônico escondido, o momento de conversar é agora — antes que a curiosidade vire dependência.
Neste 29 de agosto, a mensagem do Dia Nacional de Combate ao Fumo não precisa ficar presa em cartaz, ela pode começar dentro de casa, na escola, na academia, no posto de saúde e até naquela roda de conversa.
Cigarro não é charme, vape não é brinquedo e nicotina não é brincadeira.



