Por Paulo de Tarso
O pedágio da BR-364 virou estrela dos palanques de Rondônia. Agora, questionar a tarifa parece ter se transformado em item obrigatório do discurso eleitoral.
Reclamar do preço é legítimo. O motorista tem direito de questionar, cobrar transparência, fiscalização e qualidade no serviço. Mas existe uma pergunta que não pode ser esquecida: qual foi a responsabilidade política de quem tinha mandato quando esse processo estava sendo construído?
A concessão da BR-364 não apareceu de uma hora para outra. O projeto passou por audiência pública, análise do Tribunal de Contas da União, aprovação do edital e leilão. O certame ocorreu em fevereiro de 2025, o contrato foi assinado em julho e a concessão começou em agosto. A cobrança do pedágio teve início em janeiro de 2026.
Ou seja: houve tempo para debate, acompanhamento, posicionamento e cobrança política antes de a tarifa chegar ao bolso do cidadão.
E Rondônia já viveu discussão semelhante com a antiga Ceron. A distribuidora foi privatizada em agosto de 2018, quando a Energisa venceu o leilão. Na época, o próprio Ministério de Minas e Energia divulgava que o processo resultaria inicialmente em redução de 1,75% na tarifa para os consumidores de Rondônia, além de investimentos previstos para a empresa.
Anos depois, o debate sobre os efeitos da privatização, tarifas e qualidade do serviço continua fazendo parte da discussão pública. A lição política é simples: decisões estruturais não podem ser lembradas apenas quando seus efeitos chegam ao bolso do cidadão.
Não se trata de afirmar que todos os políticos permaneceram calados ou que ninguém participou desses debates. Cada atuação precisa ser analisada individualmente. A cobrança, porém, é legítima: quem exercia mandato durante processos dessa dimensão precisa explicar qual foi sua posição, o que defendeu e quais medidas adotou.
Porque depois que a decisão está tomada, o discurso ganha uma característica curiosa. É muito mais fácil aparecer para criticar o resultado do que assumir publicamente a responsabilidade pelo debate quando ainda havia tempo para influenciar seus rumos.
Na política, todo mundo parece querer ser pai da criança depois que ela nasceu.
E o pedágio está seguindo o mesmo roteiro.
Agora aparecem promessas de reduzir ou até acabar com a cobrança. Mas prometer é uma coisa; explicar como isso seria possível dentro do contrato, da legislação e das competências dos órgãos reguladores é outra.
Se existe caminho jurídico para rever a tarifa, que seja apresentado. Se há problema no contrato, que se mostre qual. Se existem falhas na prestação do serviço, que sejam cobradas da concessionária e dos órgãos responsáveis pela fiscalização.
O eleitor não precisa apenas ouvir quem é contra o pedágio. Precisa saber quem discutiu o assunto quando ainda havia tempo, quem se posicionou e o que efetivamente fez.
Mas responsabilidade política se mede, também, pelo que foi feito — ou defendido — quando a decisão ainda estava sobre a mesa.
E talvez essa seja a parte mais incômoda da história: depois que a conta chega, aparecem muitos especialistas em evitar a conta.



