Moradora chegou a apostar o salário inteiro de uma vez. Vício é um transtorno conhecido como ludopatia.
Uma moradora de Porto Velho perdeu mais de R$ 60 mil em apostas online. Para sustentar o vício, ela vendeu os dois ar-condicionados, a geladeira, a mesa, o guarda-roupa e as camas da casa. Chegou a apostar R$ 3 mil de uma vez — o salário inteiro — e perdeu tudo.
Em entrevista à Rede Amazônica, a mulher, que optou por não se identificar, relata que o começo não parecia um problema. Os primeiros ganhos a incentivaram a continuar.
Foi a filha quem interrompeu o ciclo: tomou o celular da mãe, bloqueou os aplicativos e a levou ao Centro de Atenção Psicossocial (Caps).
O vício da mulher se transformou em transtorno: a ludopatia. Para o psicólogo Leandro Missiato, do Núcleo de Apoio Psicossocial (Nups) do TJ-RO, o quadro combina perda de controle, prejuízo no trabalho, nas relações familiares e na saúde.
Em um ano, a casa da família em Porto Velho perdeu o que levou anos para ser comprada. A moradora chegou a deixar de pagar contas essenciais e passou a acumular inúmeros empréstimos para continuar apostando. O impacto também chegou à saúde.
Depois de abandonar os jogos, a mulher iniciou tratamento psicológico e psiquiátrico. As dívidas, no entanto, seguem: cartão estourado, contas de loja em atraso, entre outros problemas.
Em São Francisco do Guaporé, o problema apareceu em outra ponta. Um servidor público é investigado por desviar cerca de R$ 13 milhões do Fundo Municipal de Saúde. Segundo as investigações, parte do valor teria sido usada em apostas no jogo do tigrinho.
A Justiça autorizou mandados de busca e apreensão e determinou o bloqueio de cerca de R$ 500 mil em contas ligadas ao investigado. O pedido de prisão preventiva foi negado. O caso é apurado pelo MPRO como possível improbidade administrativa e segue em andamento.
“Os valores ainda estão sendo apurados pela polícia, mas, conforme dito pelo servidor, alguns desses recursos ele destinava a jogos”, afirma prefeito do município, Zé Wellington.
Ludopatia: quando o jogo vira doença
Os casos não dão isolados. Em 2025, brasileiros depositaram R$ 220,6 bilhões em casas de apostas autorizadas, e R$ 36,9 bilhões não retornaram aos apostadores, segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda. Os depósitos mensais subiram de R$ 12 bilhões em janeiro para R$ 21,4 bilhões em outubro.
A dependência de jogos de azar é classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como transtorno: a ludopatia.
O mecanismo, segundo o psicólogo Leandro Missiato, se parece com o da dependência de álcool: o limite se desfaz aos poucos, sem que a pessoa perceba. Quem apostava duas vezes por mês passa a apostar toda semana e, depois, quase todo dia. Mesmo diante de prejuízos concretos, o comportamento não é contido.
No MP-RO, a promotora de Justiça do Consumidor Daniela Nicolai acompanha o que sobra quando a dívida já se instalou. Para ela, o vício e o endividamento se alimentam um do outro e empurram o consumidor para fora do mercado e da vida social.
Uma Medida Provisória publicada em setembro proibiu, em todo o território nacional, a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa, incluindo os jogos online. A medida prevê o encerramento das operações e a devolução dos valores ainda disponíveis nas plataformas.
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Dra Daniela Nicolai – promotora do MPRO — Foto: Rede Amazônica
O vício escondido nos processos de família
Em Rondônia, o problema já ocupa espaço em duas frentes institucionais: os atendimentos psicossociais do Tribunal de Justiça e o trabalho de defesa do consumidor do Ministério Público.
No TJ-RO, o vício aparece dentro de processos comuns de família. O Nups atua em processos de guarda, de definição de convivência e de violência doméstica. Segundo Missiato, o jogo costuma surgir no meio da análise, como fator que agrava conflitos que já existiam, como uma separação.
O tema também entrou nos grupos reflexivos do tribunal para homens que respondem por violência contra a mulher. A ponte, explica Missiato, é a violência patrimonial prevista na Lei Maria da Penha:
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Psicólogo Leandro Missiato – TJRO — Foto: Rede Amazônica
Mediação com credores e educação financeira
No Ministério Público de Rondônia, o superendividamento é tratado como uma frente de atuação. O atendimento é voltado a qualquer cidadão que se considere superendividado, não apenas por causa de apostas, mas por qualquer combinação de dívidas. As bets, segundo a promotoria, agravaram esses quadros. O pedido não exige advogado nem processo. Começa com um formulário na ouvidoria, e o núcleo do consumidor avalia e convoca os credores para uma mediação:
“Nós criamos o núcleo do consumidor e os atendimentos ingressam através da ouvidoria. Qualquer cidadão que se entenda superendividado pode fazer o seu requerimento via formulário e juntar a documentação referente aos seus contratos, indicar os credores, e nós vamos agendar uma reunião de mediação com os credores para formar o plano de pagamento individual da sua dívida”, explicou Daniela Nicolai.
Além da mediação, o núcleo mantém um trabalho de educação financeira, com palestras e material orientativo. Entre os materiais está a cartilha “Renegociar para Recomeçar”, do próprio MPRO, além de publicações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), da Secretaria Nacional de Defesa do Consumidor e do Procon de Rondônia.
O perfil de quem procura ajuda, segundo a promotora, atravessa todas as faixas de renda:
“O problema atinge todas as classes sociais. Nós temos muitos servidores públicos, temos idosos e chefes de família e pessoas de baixa renda também. Mas a gente vê que hoje em dia o crédito é muito fácil e o consumo é muito estimulado, então as famílias estão se endividando e temos também o problema das bets, que são as apostas eletrônicas que também se tornaram uma patologia”, afirmou. Com informações do G1 RO.



