A defesa de Flávio Bolsonaro por Sofia Andrade é legítima, mas a escolha presidencial de Léo Moraes pertence a ele. Em uma democracia, convicção não pode virar obrigação, e divergência não deve ser confundida com deslealdade.
Por Paulo Cabral – Jornalista
A política brasileira tem dessas contradições, em nome da liberdade, alguns tentam impor aos outros como devem pensar, quem devem apoiar e até quando precisam anunciar suas escolhas. O debate sobre o possível posicionamento do prefeito de Porto Velho, Léo Moraes, em relação à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República é uma oportunidade para lembrar um princípio básico da democracia, ninguém é obrigado a transformar sua preferência política em declaração pública para satisfazer a expectativa de terceiros.
A vereadora Sofia Andrade, identificada com o bolsonarismo, tem todo o direito de defender Flávio Bolsonaro, mobilizar apoiadores e trabalhar por sua candidatura. Faz parte do jogo democrático. O que não pode ser tratado como obrigação é a adesão automática de outros agentes políticos à mesma escolha.
Defender um candidato é legítimo. Exigir que todos façam o mesmo é outra história.
Léo Moraes tem sua própria trajetória política, seus compromissos e a responsabilidade de administrar Porto Velho. A capital enfrenta desafios concretos nas áreas de saúde, infraestrutura, educação e mobilidade urbana. A população espera resultados, não uma disputa permanente para saber quem declarou apoio primeiro ou quem demonstrou maior fidelidade a determinado grupo político.
O prefeito apoiou Marcos Rogério na disputa pelo governo de Rondônia e acompanhou a eleição do irmão, Paulo Moraes, para a Assembleia Legislativa. Isso, porém, não significa que esteja obrigado a antecipar uma posição sobre a eleição presidencial. Não há motivo para presumir que a ausência de uma declaração pública represente indecisão, falta de coragem ou deslealdade política.
Cada escolha tem seu tempo, suas circunstâncias e suas consequências. E o direito de decidir também inclui a possibilidade de aguardar o amadurecimento do cenário eleitoral.
Prefeito não é cabo eleitoral obrigatório
É preciso separar as responsabilidades de um gestor público das expectativas de seus aliados. Léo Moraes foi eleito para governar Porto Velho, e sua principal obrigação é trabalhar pela cidade e pela população.
Transformar o prefeito em cabo eleitoral obrigatório de um candidato presidencial seria confundir alianças políticas com submissão. A política exige diálogo, articulação e capacidade de convivência entre diferentes correntes. Não exige que todos os integrantes de um grupo pensem exatamente da mesma maneira.
A liberdade de apoiar alguém só tem valor verdadeiro quando também se respeita a liberdade de quem faz uma escolha diferente — ou ainda não deseja torná-la pública.
Isso não coloca o prefeito acima das críticas. Agentes públicos devem ser cobrados por suas decisões, suas alianças e os resultados de suas administrações. Mas cobrar explicações sobre a gestão municipal é muito diferente de exigir uma declaração de apoio eleitoral para atender à vontade de terceiros.
Brasília não pertence a partido algum
Porto Velho precisará de investimentos federais independentemente de quem vencer a eleição presidencial. A cidade necessita de obras, recursos, convênios e políticas públicas capazes de melhorar a vida dos moradores.
O relacionamento institucional entre prefeitura e governo federal deve ser orientado pelo interesse público, pelo respeito às regras legais e pela busca de resultados. Não pode depender de fotografias de campanha, declarações antecipadas de fidelidade ou alinhamentos partidários impostos como condição informal de diálogo.
Os recursos públicos não são propriedade de candidatos, partidos ou governantes. Devem ser administrados em benefício da população, respeitando os critérios legais e as responsabilidades de cada esfera de governo.
Se Flávio Bolsonaro vencer, terá o dever de governar para todos os brasileiros. Se outro candidato conquistar a Presidência, a obrigação será a mesma. Prefeitos, governadores e demais gestores municipais precisam ter condições de manter relações institucionais republicanas, independentemente de suas preferências eleitorais.
Quando a militância vira cobrança de obediência
O problema começa quando a defesa de ideias cede espaço ao fanatismo. Nesse ambiente, quem não repete o discurso completo vira suspeito; quem não publica a fotografia esperada parece traidor; e quem prefere esperar antes de se posicionar passa a ser questionado por sua lealdade.
É uma contradição evidente: em nome da liberdade, tenta-se restringir a liberdade alheia. Em nome da democracia, cobra-se uma espécie de juramento político.
A política não pode funcionar como uma torcida organizada em que todos precisam vestir a mesma camisa, cantar a mesma música e comemorar no mesmo instante. Se cada aliado tiver de declarar apoio aos candidatos exigidos pelo grupo, a divergência deixará de ser uma característica natural da democracia para se tornar motivo de perseguição política.
Sofia Andrade pode defender Flávio Bolsonaro com a intensidade que considerar necessária. Pode apresentar argumentos, conquistar apoiadores e tentar convencer o prefeito. O que precisa ficar claro é que convencer não significa impor, assim como discordar não significa ser inimigo.
O mesmo direito que permite à vereadora expressar sua preferência deve ser garantido a Léo Moraes, inclusive se ele optar por não anunciar publicamente sua escolha neste momento.
A liberdade política não pode valer apenas para quem concorda conosco.
O voto não vem com coleira
Léo Moraes poderá apoiar Flávio Bolsonaro, Lula ou outro candidato, conforme sua avaliação política. Se decidir anunciar sua preferência, poderá fazê-lo e responder pelas razões de sua escolha. Se preferir aguardar, também deverá ter essa liberdade, sem que seu silêncio seja automaticamente interpretado como sinal de fraqueza ou deslealdade.
O eleitor, da mesma forma, não deve ser tratado como alguém obrigado a seguir a preferência de um prefeito, vereador, deputado ou liderança partidária. O voto pertence ao cidadão, e sua liberdade é um dos pilares do processo democrático.
Porto Velho tem problemas que não serão resolvidos por uma competição de declarações eleitorais. A cidade precisa de serviços públicos eficientes, investimentos, planejamento e gestores comprometidos com as necessidades da população.
A questão é simples, apoio político se conquista pelo diálogo, pelos argumentos e pela confiança. Não se arranca no grito, nem se transforma em prova obrigatória de lealdade.
Se a democracia garante a cada cidadão o direito de escolher livremente seu candidato, por que um prefeito deveria abrir mão dessa mesma liberdade para atender à expectativa de seus aliados?
Defender um nome é exercer um direito. Cobrar que todos façam o mesmo é ultrapassar o limite entre a persuasão e a imposição.
Na democracia, ninguém precisa pedir autorização para pensar diferente. E a lealdade política não pode valer mais do que a liberdade de escolha.


