Por Paulo de Tarso
Os números divulgados pelo Ministério da Educação nesta semana soam como um alerta que não pode ser ignorado. A primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) mostrou que cerca de 30% dos cursos de medicina avaliados no país tiveram desempenho considerado insatisfatório. Em linguagem simples: em quase um terço das faculdades analisadas, menos de 60% dos futuros médicos demonstraram o nível mínimo de proficiência esperado ao fim da graduação.
Não se trata de um ranking para constranger instituições ou estudantes, mas de um raio-X duro da formação médica brasileira. Um exame que escancara desigualdades, excessos e escolhas feitas ao longo dos últimos anos, quando o país apostou fortemente na expansão de cursos de medicina — muitas vezes mais orientada pelo mercado do que pelo interesse público.
Rondônia aparece nesse contexto com a Faculdade Metropolitana (UNNESA), de Porto Velho, listada entre os cursos que passarão por supervisão do MEC. É um dado que merece ser tratado com responsabilidade, sem caça às bruxas, mas também sem varrer o problema para debaixo do tapete. Avaliação insatisfatória não é sentença definitiva, mas é um sinal claro de que algo precisa ser revisto, ajustado e melhorado.
O impacto disso vai muito além dos muros da universidade. Em estados como Rondônia, onde há carência histórica de médicos em áreas afastadas, na zona rural e nos distritos, a qualidade da formação é tão importante quanto a quantidade de profissionais formados. Não adianta multiplicar diplomas se o sistema falha em garantir preparo técnico, ético e humano para quem, em breve, estará diante da vida real de pacientes que não podem ser tratados como estatística.
Os próprios dados do Enamed ajudam a entender o problema. Instituições federais e estaduais obtiveram médias de proficiência significativamente mais altas, enquanto cursos privados com fins lucrativos concentraram os piores desempenhos. Isso não autoriza generalizações simplistas, mas convida à reflexão: quando a lógica do lucro acelera a abertura de vagas, quem paga o preço pode ser a formação — e, no fim da linha, a população.
O MEC anunciou medidas de supervisão que vão desde a redução de vagas até restrições em programas como o Fies. São ações administrativas previstas em lei, com direito à ampla defesa das instituições. Ainda assim, o recado está dado: formar médicos não é um negócio comum. É uma responsabilidade social de alto impacto, que exige rigor, investimento contínuo e compromisso com a qualidade.
Para Rondônia, o desafio é duplo. De um lado, ampliar o acesso ao ensino superior em saúde; de outro, garantir que esse acesso venha acompanhado de excelência acadêmica e prática adequada, especialmente em um estado com realidades tão diversas e complexas. O estudante que entra em um curso de medicina carrega um sonho individual, mas também uma expectativa coletiva: a de cuidar, aliviar e, quando possível, salvar vidas.
O Enamed não resolve tudo. Mas cumpre um papel fundamental ao colocar dados na mesa e exigir debate público. Fingir que está tudo bem seria o maior erro. A saúde começa na sala de aula, passa pelo hospital universitário e termina — ou deveria terminar — no atendimento digno ao cidadão. Quando essa cadeia falha, toda a sociedade sente.
Talvez o maior mérito desse exame seja lembrar algo básico e, por vezes, esquecido: na medicina, não basta formar médicos. É preciso formar bons médicos. E isso não é negociável.
Redação O Bandeirante News


