O debate público brasileiro voltou a girar em torno de uma velha questão: quanto realmente custa exercer o poder? Em ano de articulações intensas, trocas partidárias, negociações orçamentárias e disputas por protagonismo, a pergunta deixa de ser apenas filosófica e ganha contornos práticos. O poder institucional tem salário fixo, estrutura oficial e prerrogativas legais. Mas seu custo político e moral é variável — e, muitas vezes, invisível.
Nos bastidores de capitais e municípios, a dinâmica é semelhante. Promessas são reafirmadas, alianças são redesenhadas e discursos passam por ajustes estratégicos. A política é, por natureza, espaço de negociação. O problema surge quando a negociação ultrapassa o interesse público e passa a orbitar exclusivamente a autopreservação. Nesse ponto, a linha entre articulação legítima e conveniência pessoal torna-se delicada.
Não se trata de generalizar. A vida pública também é composta por gestores sérios, parlamentares atuantes e lideranças comprometidas. No entanto, episódios recorrentes de incoerência, mudanças abruptas de posicionamento e decisões pouco transparentes alimentam a percepção de que o poder cobra mais do caráter do que do orçamento.
A estrutura democrática prevê mecanismos de controle, imprensa livre, tribunais de contas, Ministério Público, fiscalização parlamentar e, sobretudo, o voto. Ainda assim, a sensação popular de distanciamento entre representante e representado persiste. O contribuinte financia a máquina pública, acompanha debates acalorados e, muitas vezes, se pergunta se suas prioridades estão, de fato, na pauta central.
O custo do poder não está apenas nas cifras orçamentárias ou nos auxílios regulamentados. Ele se manifesta na credibilidade das instituições, na confiança social e na qualidade das decisões que impactam a vida coletiva. Quando a coerência se torna flexível demais, o preço é pago na erosão da confiança pública.
A democracia permite alternância, divergência e embate. Mas exige responsabilidade, prestação de contas e compromisso com aquilo que se prometeu defender. No fim das contas, mais do que ocupar uma cadeira, governar significa preservar princípios sob pressão. E essa talvez seja a fatura mais alta, porque não aparece no contracheque, mas na história política de cada mandato.



