Redação O BN
Texto: Paulo de Tarso – Jornalísta
Entre discursos travestidos de sermão e lideranças que confundem púlpito com comício, cresce o desconforto de fiéis que só queriam rezar.
Em tempos de polarização intensa e disputa permanente por espaço e influência, um fenômeno silencioso mas cada vez mais evidente vem ocupando um lugar sensível da vida social: a fé. O que antes era refúgio espiritual, espaço de acolhimento e reflexão, tem se tornado, em alguns casos, extensão do debate político mais ruidoso e, por vezes, mais raso.
Não é de hoje que religião e política caminham próximas. Ao longo da história, essa relação já produziu avanços importantes, mas também conflitos marcantes. O problema contemporâneo não está na coexistência, mas na invasão quando o limite se perde e o altar vira palanque.
Há uma diferença clara entre valores que orientam a vida pública e o uso da fé como instrumento de convencimento eleitoral. Quando líderes religiosos passam a indicar candidatos, defender abertamente projetos de poder ou demonizar adversários sob justificativas espirituais, a linha ética começa a se dissolver. E quem paga essa conta, no fim, é o fiel comum.
O cidadão que sai de casa em busca de paz, de uma palavra de esperança ou de um momento de silêncio, muitas vezes encontra discursos carregados de insinuações políticas, indiretas eleitorais e até ataques disfarçados de pregação. Não raro, o que deveria confortar passa a constranger.
E aqui cabe uma pergunta incômoda, a quem interessa essa mistura?
Para políticos, o ganho é evidente. O alcance das instituições religiosas é vasto, capilarizado e profundamente enraizado nas comunidades. É um canal direto com o eleitor ou melhor, com o fiel. Já para algumas lideranças religiosas, o poder político pode representar influência, visibilidade e, em certos casos, benefícios institucionais.
Mas há um capítulo ainda mais explícito e, para muitos, indigesto dessa relação, o da fé sazonal. É o período em que certos políticos, antes discretos ou até ausentes do ambiente religioso, passam a ocupar os primeiros bancos dos templos, levantam as mãos com fervor calculado, decoram versículos, participam de cultos, missas e eventos como se ali sempre tivessem estado.
É a conversão que dura o tempo do calendário eleitoral.
Passado o período das urnas, o silêncio volta a ocupar o lugar da devoção repentina. Os mesmos rostos deixam de ser vistos, os bancos ficam vazios e a fé, que foi palco, volta a ser apenas cenário. Para o fiel atento, a percepção é inevitável: não era espiritualidade, era estratégia.
E aqui, mais uma vez, quem paga essa conta é o cidadão comum. Porque a instrumentalização da fé não apenas desrespeita o espaço religioso, como também trata o eleitor como alguém facilmente conduzido pela emoção e não pela consciência.
Mas e a fé? Essa fica em segundo plano.
O risco maior não é apenas a contaminação do espaço religioso pelo discurso político, mas a simplificação de temas complexos em narrativas de “bem contra o mal”, onde o voto passa a ser tratado quase como um ato de devoção. A democracia perde quando o debate deixa de ser racional e passa a ser dogmático.
Há ainda um efeito colateral perigoso: a divisão dentro das próprias comunidades religiosas. Famílias, amigos e grupos que antes compartilhavam da mesma espiritualidade passam a se enxergar como adversários políticos. A fé, que deveria unir, vira mais um campo de batalha.
É claro que ninguém está proibido de ter posicionamento político muito pelo contrário. Líderes religiosos são cidadãos e têm direito à opinião. O problema não é opinar, é impor. Não é participar, é instrumentalizar.
Talvez o maior sinal de que algo saiu do equilíbrio seja quando o sermão começa a soar mais como propaganda do que como reflexão. Quando o “amém” vem seguido de aplauso político. Ou quando a esperança é substituída por medo medo de votar “errado”, de pensar diferente, de questionar.
Há, sim, quem resista a essa tendência. Muitas lideranças ainda preservam o espaço religioso como território de espiritualidade genuína, sem interferências externas. E há também fiéis mais atentos, que começam a perceber quando estão sendo conduzidos não pela fé, mas por interesses.
No fim das contas, a pergunta que fica é simples — e poderosa: o altar deve servir a Deus ou ao poder?
Porque, quando a política invade o altar sem pedir licença, quem perde não é só a religião. É a liberdade de consciência, é o respeito à diversidade e, principalmente, é a própria essência da fé.
E convenhamos, fé que aparece só em época de eleição não é milagre, é marketing.



