A segunda derrota seguida do sobrenome Bolsonaro na eleição presidencial enfraquece a força política da família, mas não o movimento bolsonarista, que colecionou vitórias nas disputas legislativas em todo o País. O resultado, contudo, deve ser questionado pela campanha de Flávio Bolsonaro (PL) devido à decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Cristiano Zanin, que prorrogou a votação em duas horas.
Na avaliação de especialistas, o revés sofrido por Flávio abre espaço para outros nomes da direita disputarem a liderança política do grupo, ainda que a benção do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) siga fundamental em uma transição que o histórico do grupo aponta que será tensa e conturbada.
O cientista político Rodrigo Prando, do Mackenzie, afirma que o bolsonarismo já não depende de uma vitória presidencial para sobreviver, pois criou uma identidade política que se enraizou em parte significativa da sociedade brasileira, principalmente em setores evangélicos, ligados à segurança pública e ao agronegócio.
Ele projeta uma disputa entre a ala ideológica, representada pelos filhos e influenciadores nas redes sociais, e a ala mais pragmática do movimento, onde estão governadores e parlamentares mais próximos do Centrão.
A tendência, diz Prando, é que o primeiro grupo radicalize o discurso antissistema e leia a derrota como fruto de injustiça e perseguição contra o bolsonarismo. Já os pragmáticos, segundo ele, provavelmente creditarão o insucesso à falta de apelo ao eleitorado centrista, passando a defender um candidato com menos rejeição para 2030.
“O desfecho dessa disputa interna vai definir o perfil da direita nos próximos anos. A minha aposta é que, no plano eleitoral, a ala pragmática ganharia mais força porque é quem tem mandato e a máquina pública nas mãos. Mas essa base radicalizada continua sendo indispensável e nenhum candidato poderia romper com ela, sob pena de virar alvo dos radicais”, analisou ele.
Sob essa ótica, ganham força o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), que tem a simpatia da Faria Lima e dos partidos que formam o Centrão, e a ex-primeira-dama e agora senadora da República eleita, Michelle Bolsonaro (PL-DF). Ela se consolidou nos últimos anos como uma figura popular entre o eleitorado evangélico e feminino. Outro nome citado constantemente é o do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), político brasileiro com maior votação para a Câmara e alcance nas redes sociais.
A margem pela qual Flávio foi derrotado também o coloca em condições de reivindicar uma segunda chance em 2030. O senador, contudo, ficará sem mandato a partir de fevereiro do ano que vem e seguirá na mira de duas investigações da Polícia Federal – pelos milhões transferidos por Daniel Vorcaro ao filme Dark Horse e pelos vínculos com o advogado Willer Tomaz, suspeito de um esquema de lavagem de dinheiro.
Eduardo Bolsonaro (PL) disse no início da semana ser favorável que Flávio deixasse o País em caso de derrota, sugerindo que o irmão poderia ser alvo de perseguição sob o governo Lula. O próprio Eduardo era visto na família como potencial presidenciável, mas as chances dele disputar a próxima eleição são remotas: autoexilado nos Estados Unidos, ele será preso se retornar ao Brasil pois foi condenado por coação no curso do processo. Ele articulou sanções do governo Donald Trump contra ministros do STF para tentar evitar a prisão do pai.
A vitória de Lula reduz as condições políticas para que o STF anule a condenação de Bolsonaro. Com o ex-presidente preso e Eduardo e Flávio com problemas na Justiça, as outras opções possíveis para manter a família como protagonista seriam o senador eleito Carlos Bolsonaro (PL-SC) ou um acordo em torno de Michelle – Jair Renan (PL) terá 32 anos no próximo pleito, abaixo da idade mínima exigida de 35 anos.
Uma eventual transição tem tudo para ser conturbada. De João Doria a Wilson Witzel, passando por Joice Hasselmann e Alexandre Frota, o bolsonarismo historicamente defenestrou aliados que tentaram conquistar algum grau de autonomia ou discordaram publicamente dos filhos do ex-presidente.
Curiosamente, os três nomes apontados como possíveis candidatos em 2030 já entraram em algum momento na mira de Eduardo, Carlos e Flávio. O primeiro fez uma série de críticas a Tarcísio por não apoiar o tarifaço dos Estados Unidos e cobrou o deputado federal Nikolas, que é rompido com Carlos, por supostamente não apoiar suficientemente a candidatura de Flávio.
Também houve a briga pública entre Flávio e Michelle após divergências sobre as alianças do clã no Ceará. Ainda que carregue o sobrenome do marido, ela é vista pelos filhos do ex-presidente como alguém que não pertence à família. Influenciadores próximos de Eduardo, por exemplo, costumam utilizar o sobrenome de solteira da ex-primeira-dama ao se referir a ela como Michelle Firmo.
Para o cientista político Sergio Simoni Jr., do Departamento de Ciência Política da USP, a estrutura do bolsonarismo, fortemente ancorada nas redes sociais, possibilitou a formação de diversas lideranças que poderiam assumir o legado após a derrota de Flávio.
Ele destaca Nikolas, que não terá mais o empecilho da idade mínima para disputar a Presidência em 2030, e Tarcísio, que embora seja menos carismático, tem o apoio de setores econômicos, o que tem um peso especial na visão do especialista pelo fato da direita ser mais popular nas classes média e alta.
Por outro lado, Simoni Jr. pondera que a votação do filho “01” do ex-presidente foi uma demonstração de força do clã diante da descrença inicial dos analistas de que Flávio seria um candidato competitivo e a série de percalços da campanha, como as trocas de marqueteiros e a briga com Michelle.
“A nomeação da família Bolsonaro ainda é um aspecto muito importante. Quem o Jair nomeie, e tenha o sobrenome Bolsonaro, terá um capital muito importante, ainda que haja uma legião de lideranças fora da família que podem se cacifar no médio prazo”, disse ele.
O economista Maurício Moura, fundador do instituto Ideia, concorda com a ideia de que duas derrotas seguidas nas urnas abrem espaço para que outros nomes da direita disputem os holofotes. Para ele, o fator mais importante será mais o desempenho do governo Lula nos próximos quatros anos e menos a escolha do nome que disputará a próxima eleição contra a esquerda.
“O que tenho visto no mundo é que a sobrevivência ou o fortalecimento de um campo político derrotado depende muito da performance de quem vai para o governo. Se tivermos um governo mal avaliado, desaprovado, independentemente dos nomes, vai ser um campo forte. Veja a eleição americana. Quem imaginaria que os democratas seriam competitivos no Senado no Texas?”, questionou.
Ele alerta que os potenciais sucessores precisam se movimentar desde já. “Uma lição que aprendi no Brasil é que governadores que pensam em projeto presidencial precisam se fazer conhecidos durante os quatro anos de governo. Não adianta chegar no ano da eleição para se fazer conhecido. A gente viu nestas eleições que isso não funciona”, concluiu.
Fonte: Estadão



