Por Paulo de Tarso – Jornalista/Editor
A eleição é uma das maiores expressões da democracia. É o momento em que o cidadão deixa de ser espectador e passa a decidir os rumos do país. Mas democracia não combina com escolha feita por raiva, vingança ou simplesmente por falta de opção.
O crescimento repentino de Augusto Cury nas pesquisas presidenciais acende uma luz sobre o comportamento do eleitor. Sair de 2% para 11% em um intervalo tão curto não é um movimento que possa ser ignorado. Mas também não deve ser interpretado de maneira simplista.
O que está por trás desses números?
É uma reação à polarização? É o eleitor indeciso encontrando uma alternativa? É voto de protesto? É uma tentativa de não votar em Lula ou Flávio Bolsonaro? Ou existe, de fato, uma parcela da população disposta a apostar em um novo nome?
Talvez seja um pouco de tudo.
O fato é que existe uma parcela da sociedade cansada da velha disputa política que há anos divide o país. Um lado contra o outro, torcida contra torcida, enquanto problemas reais continuam batendo à porta do cidadão.
Esse cansaço precisa ser levado a sério.
Mas também é preciso separar rejeição da polarização de uma escolha feita no impulso.
O voto de protesto pode ser uma manifestação legítima de insatisfação. O problema aparece quando a indignação substitui a avaliação sobre quem está sendo colocado no poder.
A urna não é lugar para simplesmente descarregar raiva. É onde se escolhe quem terá autoridade para tomar decisões que afetarão milhões de brasileiros.
Por isso, eleger alguém apenas porque “não tinha outra opção” é uma justificativa perigosa. Sempre haverá caminhos possíveis. Cabe ao eleitor comparar propostas, observar trajetórias e avaliar quem realmente apresenta condições de governar.
O problema é que o brasileiro, muitas vezes, escolhe político como quem escolhe time de futebol.
Defende o seu, ataca o adversário e, não raro, nem conhece direito o programa de governo de quem pretende colocar no poder.
Nas redes sociais, a situação ficou ainda mais complicada. Um vídeo de poucos segundos, uma frase de efeito ou uma postagem viralizada podem pesar mais do que histórico, propostas e preparação.
É a política transformada em espetáculo.
E eleição não pode ser apenas espetáculo.
Pode ter emoção, debate, disputa e esperança. Mas precisa ter responsabilidade.
O crescimento de Augusto Cury pode representar uma mudança no humor do eleitorado. Pode revelar que existe espaço para uma alternativa fora da polarização. Pode demonstrar que parte da população quer experimentar um caminho diferente.
E isso é legítimo.
O eleitor tem todo o direito de procurar uma terceira via, uma quarta via ou qualquer caminho que considere melhor para o país.
O que não se pode fazer é transformar novidade em sinônimo de competência.
Da mesma forma, experiência não significa automaticamente capacidade de governar.
É preciso olhar além do candidato: quem está ao redor, quais são as propostas, quais são as prioridades, qual é o histórico e, principalmente, se existe um projeto capaz de sair do discurso e chegar à realidade.
Porque promessa aceita tudo.
A urna, não.
O Brasil já aprendeu, muitas vezes da maneira mais dolorosa, que escolher alguém apenas para impedir outro candidato de vencer também pode produzir consequências que depois custam caro.
Não votar em Lula pode ser uma decisão legítima.
Não votar em Flávio Bolsonaro também.
Votar em Augusto Cury ou em qualquer outro candidato também é.
O problema está em escolher alguém apenas para “dar o troco” em outro.
O voto não é arma de vingança.
É instrumento de transformação.
Por isso, o crescimento de Cury merece atenção, mas não necessariamente euforia. Pesquisa eleitoral é fotografia de um momento. A eleição, porém, será construída até o último voto.
O eleitor ainda terá tempo para conhecer melhor os candidatos e separar discurso de proposta, popularidade de preparo e indignação de projeto político.
No fim, a pergunta mais importante não é se o eleitor vai votar contra Lula, contra Flávio Bolsonaro ou contra qualquer outro nome.
A pergunta é:
A favor de quem ele está votando?
Essa resposta deveria valer mais do que qualquer pesquisa.
O Brasil não precisa apenas de eleitores que saibam apertar o botão verde.
Precisa de cidadãos que saibam por que estão apertando.
Porque depois da urna vem a cobrança. E, quando o eleito assume, não existe mais “voto de protesto”.
Existe governo.
Existem decisões.
Existem consequências.
E quem paga a conta, como sempre, é o cidadão.
A urna não tem conversa fiada, votou, tá votado.



