História de Anacelia e Fabíola mostra os desafios e as descobertas da maternidade adotiva. Em Rondônia, 34 crianças e adolescentes aguardam adoção
“Sortudas” é como Anacelia e Fabíola, de Porto Velho, se definem ao se tornarem mães do pequeno Anthony Ravi por meio da adoção. O casal esperou cerca de dois anos para entrar na fila da adoção e seis meses para chamar o bebê de filho e ter o nome das duas no registro.
Durante o processo, elas precisaram rever expectativas e enfrentar preconceitos relacionados à adoção por um casal homoafetivo e à decisão de acolher uma criança fora do perfil inicialmente mais procurado.
O Ravi é autista e precisa de bastante apoio no dia a dia. Ele também tem perda de audição em um dos ouvidos e plagiocefalia. Para o casal, os diagnósticos não foram um impedimento para a adoção. Pelo contrário, elas dizem acreditar que foram escolhidas pelo menino.
Em 14 de outubro de 2026, Rondônia tinha 34 registros de crianças e adolescentes que aguardavam adoção, segundo dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA). Desse total, 52,9% eram do sexo feminino e 47,1%, do masculino. Pessoas pardas representaram a maioria dos registros.
Pretos: 5,88 %Pardos: 73,53 %Brancos: 20,59 %
A ligação que mudou tudo
Depois de passarem pela preparação e serem consideradas aptas à adoção, Anacelia e Fabíola estavam abertas à possibilidade de acolher uma criança fora do perfil inicialmente idealizado. O maior desejo das duas era se tornarem mães e terem um filho nos braços para cuidar e amar.
Em maio, após cerca de dois anos e seis meses de espera e preparação, a equipe técnica entrou em contato com o casal para informar que havia uma criança. Segundo elas, a ligação aconteceu em uma sexta-feira, e as duas tiveram até a segunda-feira seguinte para pensar na decisão, embora já soubessem o que queriam.
A chegada de Ravi e as pequenas conquistas
Depois da aproximação e dos procedimentos necessários, o casal recebeu a guarda provisória de Ravi. Na primeira noite na nova casa, o bebê dormiu a noite toda, sem estranhar o ambiente. As mães, por outro lado, passaram a noite acordadas, admirando o filho.
A chegada do menino também trouxe uma rotina de cuidados e acompanhamento médico. Entre as conquistas que mais emocionaram as mães está o desenvolvimento motor de Ravi.
Segundo o relato da família, uma avaliação médica apontava que o menino poderia não andar por causa das dificuldades motoras. Com o acompanhamento e as terapias, porém, ele começou a dar os primeiros passos sem precisar de aparelhos de apoio.
Crianças mais velhas também aguardam uma família
Dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), consultados em 14 de outubro de 2026, apontam 34 registros de crianças e adolescentes que aguardavam adoção em Rondônia. Desse total, 17 tinham 10 anos ou mais, incluindo oito com idade superior a 16 anos.
Os dados chamam a atenção para a importância de ampliar o olhar sobre a adoção de crianças mais velhas e adolescentes, que também têm direito de crescer em uma família e podem enfrentar mais dificuldades para encontrar pretendentes compatíveis com seu perfil.
Preparação vai além da escolha do perfil
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Cartilha de processso de adoção durante preparação — Foto: Reprodução/Acervo pessoal
A adoção envolve dois processos que caminham paralelamente: a preparação e a habilitação dos pretendentes e a garantia dos direitos da criança ou do adolescente. O acolhimento institucional, por si só, não significa que a criança esteja disponível para adoção. Antes disso, é necessário que a situação jurídica seja definida e que as etapas legais sejam concluídas.
Em Porto Velho, a preparação dos pretendentes inclui um curso on-line e outro presencial, promovido pela Vara de Proteção à Infância e Juventude, por meio do Núcleo Psicossocial de Proteção à Infância e Juventude (NUPS).
Depois, os interessados podem solicitar a habilitação, apresentar a documentação exigida e passar por um estudo psicossocial. Se atenderem aos requisitos legais, podem ser habilitados e inseridos no SNA.
De acordo com a psicóloga do TJRO, Danielle de Oliveira Paulon, a preparação ajuda os pretendentes a refletir sobre suas expectativas, reconhecer seus limites e conhecer outras possibilidades de adoção.
Autoconhecimento também faz parte da adoção
A preparação para a adoção também envolve o autoconhecimento dos pretendentes. Segundo Danielle, é importante que eles reconheçam suas próprias vulnerabilidades e compreendam como experiências pessoais relacionadas a perdas, abandono e rejeição podem influenciar a construção do vínculo com a criança.
A psicóloga recomenda que as famílias considerem o acompanhamento psicológico ou terapêutico como um recurso para aprofundar esse processo e se preparar emocionalmente para a parentalidade adotiva.
A especialista ressalta que crianças com o mesmo diagnóstico podem apresentar necessidades e potencialidades diferentes. Por isso, a avaliação deve considerar cada uma individualmente, levando em conta os cuidados necessários e a disponibilidade emocional e prática da família.
Adaptação exige tempo e acompanhamento
Para a especialista o vínculo afetivo não acontece necessariamente de forma imediata. Ele é construído ao longo do tempo, por meio da convivência, da confiança e da disponibilidade dos adultos para reconhecer as necessidades da criança ou do adolescente.
Segundo a psicóloga, dificuldades iniciais não significam necessariamente que a adoção não dará certo. Quando surgem problemas durante a aproximação ou o estágio de convivência, a orientação é procurar a equipe técnica, que pode avaliar a situação e indicar os encaminhamentos necessários.
O estágio de convivência é acompanhado pela equipe interprofissional. O prazo previsto é de até 90 dias, com possibilidade de prorrogação por igual período mediante decisão judicial fundamentada.
Informação para ampliar possibilidades
Para quem deseja adotar, a orientação é buscar informações, participar da preparação e refletir sobre as próprias expectativas e limitações. Segundo Danielle, a adoção não exige famílias perfeitas, mas adultos dispostos a aprender, buscar apoio e respeitar a história e o tempo da criança ou do adolescente.
Além disso, o TJRO promove campanhas de conscientização, caminhadas e seminários para dar visibilidade às diferentes realidades da adoção. A proposta é ajudar os pretendentes a conhecer outras possibilidades de filiação, sem pressioná-los a aceitar situações para as quais não estejam preparados.
Como entrar na fila de adoção?
Quem deseja adotar uma criança ou adolescente pode procurar o Setor de Adoção da Vara da Infância e Juventude mais próximo para receber orientações sobre os procedimentos e a documentação necessária.
Em Porto Velho, a 1ª Vara da Infância e Juventude fica na Avenida Pinheiro Machado, nº 777, 4º andar, no bairro Olaria.
Passo a passo para adotar
- Procurar a Vara da Infância e Juventude para receber orientações sobre a documentação necessária
- Apresentar o pedido de habilitação para adoção
- Participar do curso preparatório
- Passar pela avaliação psicossocial
- Aguardar a decisão judicial sobre a habilitação.
Se a habilitação for aprovada, os pretendentes são inscritos no SNA e passam a aguardar a indicação de uma criança ou adolescente compatível com o perfil informado, assim como aconteceu com Anacelia e Fabíola.
Por Mateus Santos, g1 RO



