O anúncio da ampliação do Estádio Aluízio Ferreira, com investimento estimado em R$ 70 milhões, retoma um debate inevitável em Porto Velho: onde começa, e onde deveria começar, a fila das prioridades?
Não se trata de ser contra o esporte. A capital precisa de estrutura moderna, calendário esportivo fortalecido e espaços adequados para competições. Um estádio revitalizado pode representar avanço institucional e visibilidade. Mas toda decisão orçamentária carrega uma mensagem.
Enquanto se planeja concreto novo e ampliação de arquibancadas, pacientes continuam sendo atendidos em corredores do Hospital e Pronto-Socorro João Paulo II. A cena não é eventual, nem desconhecida. É recorrente. Macas ocupando espaços improvisados revelam uma rede que ainda opera sob pressão.
Ao mesmo tempo, nos distritos da capital, crianças jogam bola em campos de chão irregular, sem gramado, sem iluminação e, em alguns casos, sem qualquer estrutura mínima. Há localidades com acesso comprometido, especialmente no período chuvoso. O esporte de base, que forma talentos e cidadãos, segue distante do padrão prometido nas grandes intervenções.
Quando o debate surge, aparece também a divisão técnica: estádio é atribuição estadual; campo de bairro e acesso distrital são responsabilidades municipais. Do ponto de vista jurídico administrativo, a distinção existe. Para o contribuinte, não.
O dinheiro público não muda de natureza conforme o ente federativo que o executa. Ele sai da mesma fonte: o cidadão. Se é recurso estadual ou municipal, pouco importa para quem está no corredor do hospital ou para quem joga em campo improvisado. A finalidade é uma só — atender a população.
Investir em esporte é legítimo. Modernizar equipamentos também. A questão está na sequência das escolhas. Quando há demandas estruturais urgentes na saúde e carências básicas nos distritos, direcionar dezenas de milhões para uma única obra central provoca questionamentos naturais.



